Hoje o dia foi cansativo demais. Como em qualquer outro dia, claro, porque há muito trabalho a fazer. No meu caso há muitas histórias a ouvir e muitos problemas alheios para resolver. E eu me envolvo em cada história, porque quero ajudar a cada pessoa que me pede, da melhor maneira que eu encontrar. Mas acabo, de vez em quando, esquecendo dos meus próprios problemas. Das minhas necessidades. Às vezes eu esqueço de respirar. Então, quando eu me sinto esgotada, completamente, eu corro.
Literalmente eu corro. Calço o tênis e corro no acostamento da estrada aqui perto de casa. Eu me liberto. Porque quando ouço o ruído dos pés colidindo contra o asfalto da estrada, quando sinto minha respiração começar a ficar mais rápida, quando meu coração acelera e meus músculos ardem, eu me sinto mais tranquila. Inspirar fundo e poder sentir o cheiro de grama molhada é uma dádiva que eu agradeço sempre. Então eu esqueço o amargo do dia, e a sorte que eu sonhava ter, num tempo anterior. É o que eu chamo de ócio, é como consigo canalizar minhas más energias para fora, e recomeçar.
É quando eu sinto todas as minhas melhores memórias voltando a mim. Em todas elas eu estou andando, é incrível. Repassando meus melhores momentos, eu sempre estou seguindo um caminho e olho o céu. Sabe aquela sensação inexplicável de que tudo está bem, e que tudo vai ficar bem, e que nada mais será capaz de tirar o sorriso de seu rosto? Aquela sensação de uma alegria inexpressível, que parece emanar do fundo da sua alma, e explodir em frente aos seus olhos? Pode ser uma noite nublada, com aquelas nuvens alaranjadas. Pode ser uma noite completamente limpa, com aquela lua cheia colorindo a escuridão. Pode ser aquela manhã ensolarada em que a luz excessivamente branca do sol ofusca sua visão e queima sua pele de maneira confortável. Pode ser aquele fim de tarde de cores rosadas no céu, aquele momento que você sabe que nunca vai acontecer novamente.
Ou aquela chuva que te pega no meio do caminho e encharca seus tênis, suas roupas, seus óculos. Te impede de enxergar, mas não te importa, porque te alegra. Inexplicavelmente. Eu sinto que esses momentos são os pequenos que todos vão levar consigo, e que vão fazer o portador sorrir, quando os experimentar novamente, mesmo que em memória.
Por isso, quando se sentir cheio, esgotado, acabado, arrasado, devastado, tire os sapatos de salto, limpe a maquiagem do rosto. Solte os cabelos sem se importar com o frizz. Tire essa roupa apertada, desconfortável. Corra. Pule o mais alto que puder. Dê uma gargalhada. Observe o céu. Pule nas poças de água que a chuva deixa, é para isso que elas estão lá.
E sorria. Porque essa é a finalidade da vida. Ser feliz.
Música: Hoppipolla
Artista: Sigur Ros





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